Imagine um professor de português do 7º ano que passa semanas ensinando análise morfológica (sujeito, predicado, objeto direto) só para ver seus alunos travarem diante de uma notícia de jornal. Esse descompasso entre o que se ensina e o que se usa na vida real é exatamente o problema que a Base Nacional Comum Curricular propôs resolver.
As atividades de português alinhadas à BNCC não abandonam a gramática. Elas a colocam a serviço da comunicação. O foco passa a ser o uso da língua em situações concretas: ler uma instrução, escrever um e-mail, argumentar num debate, interpretar um infográfico. Para professores e coordenadores pedagógicos, isso exige uma reorientação real do planejamento.
Este guia mostra como estruturar exercícios e atividades do 1º ao 9º ano com atenção às habilidades da BNCC, incluindo adaptações para alunos neurodivergentes e recursos digitais que economizam tempo sem sacrificar qualidade.
Atividades de Português Alinhadas à BNCC: O que Muda no Planejamento?
A BNCC reorganizou o ensino de língua portuguesa em torno de campos de atuação social: o artístico-literário, o das práticas de estudo e pesquisa, o jornalístico-midiático e, nos anos finais, o da vida pública. Cada campo define práticas de linguagem que devem ser trabalhadas de forma integrada: leitura, produção de textos, oralidade e análise linguística.
Conforme documentado pela Nova Escola em sua plataforma sobre a BNCC, essa estrutura desloca o centro do planejamento: o ponto de partida de uma aula deixa de ser a regra gramatical e passa a ser o gênero textual e o contexto de circulação do texto.
Na prática, uma aula de leitura não termina com "qual é a ideia principal?". A BNCC exige que o aluno reconheça o gênero, identifique o propósito comunicativo, relacione o texto ao contexto de produção e, com frequência, produza uma resposta em outro gênero. Uma notícia virou suporte para uma carta de leitor. Um conto virou roteiro para um podcast.
Cada habilidade da BNCC tem um código no formato EF(ano)(LP)(número) — por exemplo, EF35LP05 indica uma habilidade dos 3º ao 5º ano em Língua Portuguesa. Planejar atividades a partir desses códigos facilita o registro no diário, a comunicação com a coordenação e a preparação para avaliações externas como o SAEB.
Uma perspectiva consolidada no trabalho com gêneros discursivos é que atividades que partem de situações reais de uso da linguagem produzem maior engajamento e compreensão do que exercícios descontextualizados. A chave está em oferecer aos alunos textos que circulam de fato no mundo — não textos fabricados apenas para treinar regras.
Exercícios de Português por Ciclo (1º ao 9º Ano)
Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano): da letra à leitura fluente
Nos anos iniciais, as atividades de português precisam construir três bases simultaneamente: consciência fonológica, domínio ortográfico e compreensão leitora. A BNCC prevê que, ao final do 2º ano, os alunos já estejam alfabetizados — e que os anos seguintes consolidem fluência e interpretação.
Atividades indicadas por habilidade:
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EF01LP03 / EF02LP02 — Consciência fonológica: Jogos de rima, sequências de sílabas, ditado de palavras com som similar (casa/cassa, coelho/coalho). Podem ser feitos em grupos pequenos com cartelas ou digitalmente.
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EF03LP02 / EF04LP02 — Ortografia contextualizada: Produção de listas de palavras organizadas por campo semântico (alimentos, animais, profissões) com destaque para convenções ortográficas. O contexto facilita a memorização.
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EF05LP10 — Leitura de textos do cotidiano: Interpretação de cardápios, convites de aniversário, instruções de brinquedo. Questões que pedem ao aluno para identificar o destinatário, o propósito e a organização do texto.
No Fundamental I, alterne atividades de produção escrita com atividades orais. A BNCC valoriza a oralidade como prática de linguagem legítima — seminários simples, rodas de conversa e contação de histórias desenvolvem habilidades que a escrita sozinha não cobre.
Ensino Fundamental II (6º ao 9º ano): análise, argumento e autoria
Nos anos finais, as atividades avançam para análise linguística mais sistemática e produção autoral em gêneros complexos. O foco gramatical existe, mas sempre articulado à produção e à leitura.
Atividades indicadas por habilidade:
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EF67LP21 — Notícia e reportagem: Leitura comparada de duas versões da mesma notícia em veículos diferentes. O aluno identifica o ponto de vista, os recursos linguísticos usados para persuadir e a seleção de fontes. Produção: reescrita da notícia alterando o ponto de vista.
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EF89LP03 — Artigo de opinião: O aluno lê três artigos sobre o mesmo tema controverso, mapeia os argumentos centrais e escreve seu próprio artigo com posição definida e pelo menos dois contra-argumentos respondidos.
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EF69LP07 — Análise morfossintática em função textual: Em vez de classificar palavras num vácuo, o aluno analisa como a escolha entre voz ativa e passiva muda o foco de uma notícia ou como o uso de adjetivos avaliadores constrói opinião num texto jornalístico.
— Nova Escola, plataforma BNCC Língua Portuguesa"Os conhecimentos sobre a língua, as normas-padrão e as diferentes linguagens não são conteúdos a serem transmitidos, mas ferramentas para ampliar as capacidades dos estudantes de participar de práticas de linguagem diversificadas."
Interpretação de Texto e Gêneros Textuais
A BNCC não lista apenas textos literários clássicos. Ela inclui explicitamente textos multimodais (que combinam imagem, som e escrita) e textos digitais (posts, vídeos legendados, sites, podcasts) como objetos legítimos de ensino. Para muitos professores formados numa tradição mais literária, esse é o ponto de maior ruptura.
Conforme a plataforma BNCC da Nova Escola, trabalhar com gêneros diversos não é um desvio do currículo. É o currículo.
Atividades com diferentes gêneros textuais
Crônica (campo artístico-literário): Leia a crônica em voz alta. Peça ao aluno para identificar o narrador, o tom (irônico, saudoso, cômico) e o ponto de inflexão do texto. Proposta de produção: escrever uma crônica sobre um episódio cotidiano da escola, imitando o estilo do autor lido.
Notícia e infográfico (campo jornalístico-midiático): Apresente uma notícia com infográfico embutido. Questão de múltipla escolha: qual informação está no gráfico mas não está no texto verbal? Questão dissertativa: a manchete é fiel ao conteúdo da notícia? Justifique com trechos do texto.
Texto de divulgação científica (campo de estudo e pesquisa): Use um texto de divulgação sobre saúde ou meio ambiente. Peça ao aluno para identificar linguagem técnica, reconhecer as fontes citadas no texto e reescrever um parágrafo para um público de 10 anos.
Post e comentário de rede social (campo digital): Mostre um post sobre um tema público e três comentários com posições diferentes. O aluno classifica os comentários por grau de argumentação e identifica quais usam evidências e quais usam apenas opinião pessoal.
A BNCC não sugere substituir livros por telas. O objetivo é ensinar o aluno a ler criticamente qualquer suporte. Textos digitais exigem habilidades específicas, como navegação hipertextual, identificação de fontes confiáveis e análise de imagens, que precisam ser ensinadas explicitamente.
Atividades Adaptadas para Alunos Neurodivergentes (TEA e TDAH)
A inclusão de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em turmas regulares exige adaptações que raramente aparecem nos livros didáticos. O bom notícia é que muitas dessas adaptações melhoram o aprendizado para toda a turma.
Para alunos com TEA
Alunos autistas frequentemente se saem bem em tarefas com estrutura previsível e critérios explícitos, mas podem ter dificuldade com ambiguidades linguísticas, ironia e linguagem figurada — justamente o que a literatura e a crônica exploram.
Adaptações práticas:
- Segmente a atividade visualmente. Em vez de um enunciado longo com várias perguntas, apresente cada questão num bloco separado com numeração clara.
- Torne o gênero textual explícito. Antes de pedir a leitura, apresente um quadro com as características do gênero: "Uma crônica tem narrador, geralmente no passado, sobre situações comuns com humor ou reflexão."
- Para linguagem figurada: apresente o trecho metafórico e pergunte diretamente "O que o autor quis dizer com essa expressão?" antes de pedir interpretação mais aberta.
- Tempo ampliado: avaliações de interpretação com tempo estendido são previstas pelo Decreto Federal nº 7.611/2011 e devem ser documentadas no PEI (Plano Educacional Individualizado).
Para alunos com TDAH
Alunos com TDAH tendem a ter dificuldade com tarefas longas e pouco variadas. A atividade em si pode ser a mesma da turma, mas o formato precisa ser diferente.
Adaptações práticas:
- Quebre a leitura em blocos. Para textos longos, marque até onde o aluno deve ler antes de responder a primeira questão, depois até onde ler para a segunda, e assim por diante.
- Use suporte visual. Fichas de leitura com perguntas guia (Quem? O quê? Quando? Por quê?) ajudam a estruturar a atenção durante a leitura.
- Alternância de modalidade: intercale atividades escritas com orais. Após ler um texto, o aluno pode responder verbalmente à professora antes de escrever.
- Feedback imediato: corrija uma questão antes de o aluno passar para a próxima. Isso mantém a motivação e corrige rotas antes que o erro se acumule.
Adaptar atividades de português para alunos neurodivergentes não significa diminuir os objetivos de aprendizagem. Significa oferecer caminhos diferentes para chegar ao mesmo lugar. Um aluno com TDAH que responde oralmente a uma questão de interpretação está desenvolvendo a mesma habilidade que um colega que escreve a resposta.
Gabarito Comentado e Recursos Digitais Interativos
Por que gabaritos comentados ensinam mais
Um gabarito que mostra apenas "A" ou "B" não ensina nada. Um gabarito comentado explica por que a alternativa correta está certa e por que as incorretas estão erradas — e esse raciocínio é exatamente o que a BNCC espera que os alunos desenvolvam.
Ao montar um gabarito comentado, siga esta estrutura para cada questão:
- Resposta: qual é a alternativa ou resposta esperada.
- Por que está certa: trecho do texto ou argumento que fundamenta a resposta.
- Distratores: por que as alternativas erradas são atraentes e onde o aluno que as escolheu provavelmente errou no raciocínio.
Essa prática é especialmente valiosa em simulados preparatórios para o SAEB, cujos resultados por escola e município estão disponíveis no portal do INEP e podem orientar o foco das atividades ao longo do ano.
Ferramentas digitais que funcionam na prática
A pesquisa da UFBA sobre tecnologias digitais no ensino de Língua Portuguesa em escolas públicas identificou um gargalo importante: o acesso às ferramentas existe com mais frequência do que a formação para usá-las pedagogicamente. Ter um tablet na sala não garante aprendizagem. Ter um propósito claro para o uso do tablet, sim.
Algumas ferramentas com aplicação direta:
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Quizzes de ortografia e gramática (Wordwall, Kahoot): funcionam bem para fixação e revisão, especialmente no Fundamental I. O componente lúdico aumenta a participação sem sacrificar o conteúdo.
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Documentos colaborativos (Google Docs, Canva Education): ideais para produção textual em etapas. O professor acessa o histórico de versões e vê como o texto evoluiu, o que torna o processo de escrita avaliável, não só o produto final.
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Ferramentas de IA generativa com mediação docente: podem ser usadas para gerar rascunhos que o aluno critica, corrige e melhora. A habilidade de revisar texto de outro, inclusive de uma IA, é prevista nas competências de análise linguística da BNCC e prepara o aluno para um uso crítico dessas tecnologias.
Teste você mesmo antes de levar para a turma. Verifique se funciona na conexão disponível na escola, se exige cadastro dos alunos (o que complica para menores de 13 anos) e se o conteúdo gerado pode ser revisado antes de aparecer na tela da turma.
O que isso significa para o seu planejamento
A BNCC para língua portuguesa representa uma mudança de lógica, não apenas de vocabulário pedagógico. Mas essa mudança não pede que professores abandonem o que sabem. Pede que reorganizem o conhecimento existente em torno de um novo centro: o texto em uso, situado num contexto social real.
O caminho prático:
- Escolha um campo de atuação por unidade temática e selecione dois ou três gêneros representativos desse campo.
- Planeje atividades de leitura, produção e análise linguística integradas — não como blocos separados da semana.
- Inclua pelo menos um texto digital ou multimodal por unidade.
- Documente as habilidades BNCC trabalhadas no diário ou na plataforma da escola.
- Use gabaritos comentados em vez de gabaritos simples sempre que possível.
A pesquisa que analisa a variação linguística na transição dos PCNs para a BNCC mostra que professores que compreendem os fundamentos teóricos da mudança curricular conseguem adaptar seus materiais com mais autonomia do que aqueles que recebem apenas atividades prontas. Investir em compreender o porquê da BNCC é a formação mais duradoura que um professor de português pode fazer.
As atividades de português mais eficazes não são necessariamente as mais elaboradas. São as que partem de um texto real, pedem ao aluno que faça algo concreto com ele e oferecem feedback claro sobre o processo, não apenas sobre o resultado final.



