Quantos professores você conhece que passaram a virada do ano relendo a BNCC, sublinhando competências e habilidades, para depois chegar em janeiro sem saber exatamente que atividades de matemática colocar na mesa dos alunos na segunda-feira? Esse gap entre o documento e a sala de aula não é um problema de comprometimento, é um problema de mediação pedagógica, e é exatamente o que este guia pretende resolver.

A Base Nacional Comum Curricular reorganizou o ensino de matemática no Brasil em torno de um conceito central: o letramento matemático, que é a capacidade de ler, interpretar e aplicar conceitos matemáticos em situações reais, não apenas de resolver contas corretas. Essa mudança de foco representa uma ruptura com décadas de ensino procedimental, e vale refletir sobre o que ela significa na prática do dia a dia em sala de aula.

Aqui você encontra atividades organizadas por etapa escolar, orientações para educação inclusiva e EJA, euma seção sobre ferramentas digitais, tudo alinhado às cinco unidades temáticas da BNCC: Números, Álgebra, Geometria, Grandezas e Medidas, e Probabilidade e Estatística.


Atividades de Matemática por Ano (1º ao 5º Ano)

O Ensino Fundamental I é o território da alfabetização matemática. A BNCC é clara ao propor que, nessa fase, o aluno deve construir o sentido de número antes de operar com ele. Isso tem implicações diretas para o tipo de atividade que funciona.

1º e 2º Anos: Construir o Sentido de Número

Nos dois primeiros anos, o foco recai sobre contagem, comparação de quantidades e as primeiras noções de adição e subtração com significado. Materiais manipuláveis, como tampinhas, palitos, blocos lógicos e o próprio ábaco, são instrumentos pedagógicos, não ornamentos.

Atividades que funcionam nessa etapa:

  • Sequências e padrões com objetos concretos: peça que os alunos criem e completem sequências usando objetos do cotidiano, conectando à unidade de Álgebra desde cedo.
  • Adição e subtração com registro pictórico: antes do algoritmo formal, o aluno desenha a operação. A habilidade EF01MA06 da BNCC prevê exatamente essa progressão.
  • Agrupamentos: contar em grupos de 2, 5 e 10 prepara o terreno para o sistema de numeração decimal, central no 2º ano.
Material manipulável acessível

Tampinhas de garrafa PET organizadas em caixinhas de ovos formam um ábaco improvisado eficaz e custo zero. Cada compartimento representa uma unidade, e dez tampinhas viram uma dezena ao serem movidas para um recipiente maior.

3º ao 5º Anos: Operações Fundamentais e Primeiros Conceitos de Frações

A partir do 3º ano, a multiplicação e a divisão entram em cena, e a BNCC orienta que sejam apresentadas como extensão do raciocínio aditivo, não como regras isoladas. Um aluno que entende que 4 × 3 é "quatro grupos de três" tem base para resolver problemas; um aluno que apenas memorizou a tabuada pode travar diante de qualquer variação contextual.

No 4º e 5º anos, as frações ganham protagonismo. A habilidade EF04MA08 exige que o aluno reconheça fração como parte de um todo e como resultado de divisão, o que demanda atividades que conectem os dois registros.

Atividades recomendadas:

  • Problemas com estrutura multiplicativa em contextos reais: quantas pernas têm 6 cadeiras? Quantas dúzias cabem em 36 ovos?
  • Dobraduras para frações: dividir uma folha de papel ao meio, em quartos e em oitavos torna a relação parte-todo visível e manipulável.
  • Gráficos de barras com dados da turma: altura dos alunos, preferências de lanche, número de irmãos. Probabilidade e Estatística já podem ser trabalhadas aqui com dados que fazem sentido para a criança.

Matemática para o Ensino Fundamental II (6º ao 9º Ano)

No Ensino Fundamental II, a abstração aumenta e muitos alunos começam a perder o fio da meada. Álgebra, frações complexas e geometria analítica são os pontos de maior abandono. A chave pedagógica da BNCC para essa fase é a articulação entre as unidades temáticas: um problema de geometria bem posto envolve medida, álgebra e, muitas vezes, estatística.

6º e 7º Anos: Álgebra e o Raciocínio Proporcional

A passagem do pensamento aritmético para o algébrico é um dos momentos mais críticos da trajetória escolar em matemática. Muitos alunos chegam ao 6º ano sem consolidar frações, o que compromete toda a cadeia seguinte.

  • Situações de proporcionalidade com tabelas: receitas culinárias, escala de mapas e conversão de moedas são contextos que tornam a proporcionalidade concreta antes de qualquer equação.
  • Introdução à linguagem algébrica via "caixa misteriosa": o aluno descobre o número escondido antes de aprender a notação formal. A habilidade EF06MA14 prevê esse caminho.
  • Frações em contextos geométricos: calcular a área de um retângulo com medidas fracionárias reforça simultaneamente dois eixos temáticos.

8º e 9º Anos: Geometria, Estatística e Interpretação de Dados

Nessa etapa, os problemas matemáticos precisam exigir leitura e interpretação. A BNCC não trata isso como interdisciplinaridade decorativa, mas como competência central do letramento matemático.

  • Teorema de Pitágoras com situações de medição real: pedir que os alunos meçam a diagonal da sala de aula e verifiquem o resultado com o teorema transforma abstração em verificação empírica.
  • Análise de gráficos de notícias: trazer gráficos de jornais ou sites de notícias e pedir que os alunos identifiquem distorções de escala desenvolve senso crítico estatístico.
  • Equações como modelagem: "Um plano de celular cobra R$30 fixos mais R$0,10 por minuto. Outro cobra R$50 com minutos ilimitados. A partir de quantos minutos o segundo vale mais?" é uma equação do 1º grau com sentido real.

"A dificuldade dos professores não está na compreensão do que a BNCC propõe, mas em como traduzir as competências em atividades concretas que funcionem com turmas heterogêneas e recursos limitados."

Pesquisa publicada no periódico Vertex/SBEM sobre formação continuada e BNCC

Atividades de Matemática para Imprimir (PDF com Gabarito)

A demanda por materiais prontos para imprimir é real e legítima. Um professor que gerencia seis turmas por dia, prepara provas, faz registros e ainda atende pais não tem condições de criar atividades do zero para cada habilidade da BNCC. Materiais de qualidade, alinhados ao currículo, são um suporte, não uma muleta.

Por que o gabarito comentado importa

Um gabarito que apenas apresenta a resposta certa serve ao professor. Um gabarito comentado, que explica o raciocínio esperado e os erros mais comuns, serve ao aluno e ao processo de autoavaliação.

A autoavaliação é uma competência metacognitiva reconhecida pela pesquisa em educação matemática como determinante para a autonomia do aprendiz. Quando o aluno consegue identificar onde errou sem precisar da mediação do professor a cada passo, ele desenvolve exatamente o tipo de autonomia intelectual que a BNCC articula em suas competências gerais.

Como estruturar um gabarito comentado

Para cada questão, inclua: (1) a resposta correta, (2) o raciocínio passo a passo, (3) o erro mais frequente e por que ele acontece, e (4) a habilidade da BNCC correspondente (ex: EF05MA10). Esse formato transforma o gabarito em material de estudo, não só de correção.

O que verificar antes de usar um PDF externo

Antes de distribuir qualquer material baixado da internet, cheque três pontos: o alinhamento com as habilidades da BNCC (não apenas com o conteúdo genérico), a adequação ao ano escolar específico (atividades do 5º ano não servem ao 4º sem adaptação), e a presença de contextos relevantes para a realidade dos seus alunos.


Educação Inclusiva e AEE: Matemática para Todos

A BNCC é explícita ao afirmar que a educação inclusiva não é um apêndice curricular, mas uma condição do próprio projeto educacional. Para o professor de matemática, isso significa que adaptar atividades para alunos com necessidades educacionais especiais (AEE) faz parte da competência docente, não é responsabilidade exclusiva do especialista de suporte.

Princípios para adaptação de atividades

A adaptação eficaz não simplifica o conceito; ela muda o formato de acesso. Um aluno com dislexia severa pode ter dificuldade com enunciados longos, mas não com raciocínio lógico. Um aluno com discalculia pode precisar de mais tempo e de representações visuais, mas é capaz de compreender relações matemáticas complexas.

Orientações práticas:

  • Para alunos com deficiência visual: use materiais em alto relevo, como grades de pontos em EVA, e priorize a descrição oral dos problemas. A calculadora é um recurso legítimo, não uma concessão.
  • Para alunos com TEA: enunciados diretos, sem ambiguidade, e contextos familiares reduzem a carga cognitiva e permitem que o foco seja o raciocínio matemático.
  • Para alunos com discalculia: representações concretas antes das simbólicas, mais tempo para operações e acesso a linha numérica física são adaptações de baixo custo e alto impacto.
  • Para alunos com altas habilidades: o desafio não é mais conteúdo, é maior profundidade. Peça que esses alunos expliquem o raciocínio por escrito, criem seus próprios problemas ou encontrem métodos alternativos de resolução.
Atenção ao Plano de AEE

As adaptações devem estar registradas no Plano de AEE do aluno e ser elaboradas em parceria com o professor do AEE. A autonomia do professor de sala é fundamental, mas o processo precisa de registro e acompanhamento sistemático.


Matemática e Tecnologia: Ferramentas Digitais e Lógica

A BNCC inclui entre suas competências gerais o desenvolvimento do "pensamento computacional" e o uso crítico das tecnologias digitais. Para a matemática, isso abre duas frentes concretas: o uso de ferramentas digitais para exploração de conceitos e a introdução à lógica por meio da programação desplugada.

Ferramentas digitais que funcionam em sala de aula

  • GeoGebra: gratuito, roda no navegador sem instalação, e permite explorar geometria dinâmica, funções e estatística de forma visual. Ideal para o Fundamental II e altamente alinhado às habilidades de Geometria e Álgebra da BNCC.
  • Planilhas eletrônicas: o Google Planilhas é uma ferramenta de estatística acessível. Alunos do 8º e 9º anos podem calcular médias, criar gráficos e interpretar dados reais sem precisar de software especializado.
  • Calculadora: a BNCC recomenda explicitamente o uso da calculadora como recurso pedagógico desde os anos iniciais, especialmente para verificação de resultados e exploração de padrões numéricos. Usá-la com inteligência é uma habilidade; proibi-la é um equívoco.

Programação desplugada e pensamento lógico

A programação desplugada usa atividades físicas para desenvolver o pensamento algorítmico sem depender de computadores, o que a torna viável em qualquer escola, independente de infraestrutura.

Exemplos aplicáveis a aulas de matemática:

  • Algoritmo de busca com cartas numeradas: os alunos criam e executam um algoritmo para encontrar um número em uma sequência desordenada, conectando diretamente à ideia de sequências e funções.
  • Labirintos com instruções codificadas: o aluno escreve uma sequência de comandos (avance 3 passos, vire à direita) para guiar um colega até o objetivo, trabalhando orientação espacial e geometria.
  • Tabela verdade com proposições simples: no 9º ano, a lógica proposicional pode ser introduzida como extensão natural da matemática, preparando para o Ensino Médio.

Atividades para EJA (Educação de Jovens e Adultos)

O público da EJA chegou à sala de aula carregando experiência de vida que a maioria dos currículos escolares ignora. Um adulto que gerencia as finanças de uma microempresa informal já pratica proporcionalidade, porcentagem e noções de lucro e prejuízo sem saber os nomes técnicos. A tarefa do professor de matemática na EJA é fazer essa ponte, não partir do zero como se o aluno fosse uma criança.

Contextos que funcionam com adultos

  • Matemática financeira aplicada: cálculo de juros simples, desconto em boleto, comparação entre formas de pagamento. Essas são competências com impacto direto na vida do aluno.
  • Medidas e geometria no mundo do trabalho: um aluno que trabalha na construção civil precisa saber calcular área e volume. Um aluno no comércio precisa de porcentagem e regra de três. Partir dessas necessidades reais torna o conteúdo imediatamente relevante.
  • Leitura e interpretação de gráficos: contas de luz, extratos bancários e tabelas de impostos são materiais autênticos que desenvolvem letramento matemático com contexto adulto.

O que evitar na EJA

Evite enunciados infantilizados ("Maria tem 5 balas e ganha mais 3") com adultos. O problema do conteúdo raramente é a dificuldade matemática; é a inadequação do contexto. Um adulto que sente que a atividade foi feita para criança desengaja antes de tentar.


O que Isso Significa na Prática

A BNCC trouxe um currículo mais coerente e ambicioso para a matemática brasileira. A implementação avançou nas escolas nos últimos anos, mas traduzir o currículo prescrito em prática cotidiana exige suporte contínuo.

O maior obstáculo identificado pela pesquisa da área não é a resistência dos professores ao novo, mas a falta de materiais adequados e de formação continuada que conecte a teoria da BNCC com as demandas específicas de cada turma. Como aponta estudo publicado pela SBEM, professores que participam de programas de formação continuada voltados para a BNCC relatam maior segurança na elaboração de atividades e maior coerência entre o planejamento e o que acontece em sala.

As desigualdades regionais tornam esse cenário mais complexo. Vale considerar que as disparidades de acesso a recursos e formação entre regiões brasileiras podem comprometer a equidade da implementação — uma questão que nenhum conjunto de atividades resolve sozinho, mas que um bom material pode ao menos parcialmente endereçar ao ser acessível e contextualmente relevante.

O trabalho prático começa com as atividades certas para cada turma, cada etapa e cada realidade. Este guia é um ponto de partida; a continuidade depende do olhar do professor sobre os próprios alunos.