Quantas vezes você planejou uma aula de história e percebeu que os alunos estavam decorando datas, mas não conseguiam explicar por que aquele evento importava? Não é um problema de esforço dos estudantes. É um problema de método — e a Base Nacional Comum Curricular foi elaborada, em parte, para enfrentar exatamente isso.
A proposta central da BNCC para o componente de História é desenvolver o que o documento chama de "atitude historiadora": a capacidade de identificar, comparar, contextualizar, interpretar e analisar fontes diversas, em vez de apenas acumular informações sobre o passado. Para professores do 6º ao 9º ano, isso significa repensar não só os conteúdos, mas a forma como as atividades de história são estruturadas — quais perguntas abrem a aula, quais materiais os alunos manuseiam, como a avaliação é formulada.
Este guia reúne planos de aula práticos, exercícios comentados por série e orientações para inclusão, tudo alinhado às habilidades e competências da BNCC.
Atividades de História Alinhadas à BNCC: O que Muda na Prática?
A mudança mais significativa está na pergunta que orienta cada atividade, não nos temas, como feudalismo, Revolução Industrial e Era Vargas, que continuam presentes. O ponto de partida deixa de ser "o que aconteceu?" e passa a ser "como sabemos o que aconteceu, quem escreveu sobre isso e por quê?".
Vale considerar que a BNCC de História carrega uma tensão interna: ela avança ao propor o trabalho com fontes históricas como método central, mas preserva em sua versão final uma grade de conteúdos que pode induzir professores a priorizar a transmissão linear de eventos. Conhecer essa tensão é o primeiro passo para não cair nela.
Na prática, a habilidade EF06HI01 exige que o aluno identifique diferentes formas de periodização histórica — o que pressupõe atividades que apresentem múltiplas versões de uma mesma época, não uma única narrativa fechada. O professor que apenas explica a periodização tradicional (Pré-História, Antiguidade, Idade Média etc.) cumpriu o conteúdo, mas não a habilidade.
A BNCC requer professores que organizam situações de aprendizagem — uma competência que precisa ser desenvolvida em formação continuada, não apenas na graduação. Vale refletir sobre como os cursos de licenciatura têm preparado docentes para ir além do modelo expositivo e assumir o papel de mediadores da aprendizagem.
Um ponto que não admite negociação: a BNCC determina a inclusão obrigatória de conteúdos sobre história e cultura africana e afro-brasileira, em cumprimento à Lei 10.639/2003. Análises de livros didáticos alinhados à BNCC publicadas pelo eduCAPES mostram que essa diretriz ainda enfrenta resistência na implementação, com muitos materiais tratando o tema de forma periférica ou folclórica. O planejamento das atividades precisa compensar esse déficit.
Atividades de História para o 6º Ano: Da Pré-História à Antiguidade Clássica
O 6º ano é o momento em que os alunos fazem a transição do mundo imediato, como família, bairro e município, para escalas temporais muito mais amplas. As habilidades da BNCC para essa série cobrem do nomadismo pré-histórico às civilizações mediterrâneas e exigem que o aluno comece a trabalhar com fontes não escritas.
Sugestões de atividades práticas
Leitura de fontes materiais (EF06HI04): Apresente imagens de artefatos arqueológicos, como pinturas rupestres, cerâmicas e ferramentas de pedra, sem contextualizá-los previamente. Peça que cada aluno registre três observações sobre o objeto, uma hipótese sobre seu uso e uma pergunta que faria ao arqueólogo. A discussão coletiva depois revela como construímos conhecimento histórico a partir de evidências fragmentadas.
Linha do tempo comparativa (EF06HI02): Divida a turma em grupos, cada um responsável por uma civilização antiga. Cada grupo constrói uma linha do tempo com pelo menos cinco marcos. Depois, a turma compara as cronologias lado a lado e discute por que algumas civilizações aparecem com mais frequência nos livros didáticos do que outras. Essa pergunta já introduz a ideia de que a história é construída por escolhas.
Exercício dissertativo: "Escolha uma fonte histórica que não usa palavras — uma imagem, um objeto ou uma construção. Explique o que ela revela sobre a vida das pessoas naquele período e qual é o limite do que essa fonte pode nos contar."
Atividades de História para o 7º Ano: Idade Média, Renascimento e Brasil Colonial
O7º ano cobre uma das transições mais densas do currículo: do feudalismo ao capitalismo mercantil, do Renascimento às Grandes Navegações, da Europa para o Atlântico. É também quando a história do Brasil entra em cena de forma estruturada — e, com ela, a perspectiva dos povos originários e das populações africanas escravizadas.
Sugestões de atividades práticas
Mapa mental da transição feudal-capitalista (EF07HI09): Proponha que os alunos construam um mapa mental conectando pelo menos quatro fatores responsáveis pela crise do feudalismo (epidemias, cruzadas, crescimento urbano, expansão do comércio) ao surgimento das primeiras formas de capitalismo mercantil. O objetivo é visibilizar conexões causais, não memorizar fatos isolados.
Debate com fontes em conflito (EF07HI13): Apresente dois documentos históricos sobre a chegada dos portugueses ao Brasil — um relato europeu e uma análise contemporânea que incorpora perspectivas de povos originários. Peça que os alunos identifiquem as diferenças de narrativa e discutam por que elas existem. Esse exercício trabalha diretamente o conceito de ponto de vista histórico e abre espaço para a discussão sobre colonialismo.
Questão de múltipla escolha com gabarito:
Sobre o sistema de capitanias hereditárias no Brasil colonial, é correto afirmar que:
a) Foram criadas para promover a autonomia dos colonos brasileiros frente à Coroa. b) Representaram uma estratégia da Coroa Portuguesa para administrar o território com baixo custo direto. c) Tiveram sucesso imediato em todo o litoral brasileiro a partir de 1534. d) Foram extintas pelos próprios colonos em revoltas do século XVI.
Gabarito comentado: Alternativa B. O sistema delegou a nobres portugueses (donatários) a responsabilidade pela colonização, reduzindo o investimento direto da Coroa. A maioria das capitanias enfrentou dificuldades severas, e algumas fracassaram antes de o modelo ser reformado com o Governo-Geral em 1549.
Atividades de História para o 8º Ano: Revoluções e o Império do Brasil
Em termos de densidade conceitual, o 8º ano é um dos mais exigentes do Ensino Fundamental II: Iluminismo, Revolução Francesa, Revolução Industrial, Independência do Brasil e o período imperial concentram transformações que os alunos precisam conectar, não apenas enumerar.
Sugestões de atividades práticas
Análise de charges e caricaturas (EF08HI12): Selecione charges do século XIX que retratem D. Pedro I ou líderes da Revolução Francesa. As perguntas devem orientar o aluno a identificar: quem produziu o documento, para qual público, com que intenção e o que ele revela sobre o contexto político do período. Esse exercício prepara os alunos para as questões com fontes do SAEB e do ENEM.
Questão dissertativa (EF08HI16): "A Revolução Industrial transformou não apenas a economia, mas as relações de trabalho, o espaço urbano e o cotidiano dos trabalhadores. Usando pelo menos dois exemplos concretos, explique como essas transformações afetaram grupos sociais distintos de formas diferentes."
Conexão entre histórias: Proponha que os alunos identifiquem de que forma o pensamento iluminista influenciou o processo de Independência do Brasil e quais grupos sociais foram incluídos, ou excluídos, do projeto de nação construído em 1822. A atividade impede que a história europeia e a brasileira sejam tratadas como paralelas e desconexas.
Pesquisadores que analisaram a concepção de História na BNCC alertam para o risco de o 8º ano reforçar uma visão em que os processos europeus são o motor e os brasileiros, mera consequência. Planeje atividades que coloquem em diálogo os dois lados do Atlântico, incluindo as perspectivas africanas no contexto do tráfico de pessoas escravizadas — conteúdo exigido pela BNCC e ainda frequentemente marginalizado nas aulas.
Atividades de História para o 9º Ano: Era Vargas, Guerras Mundiais e Brasil Contemporâneo
O 9º ano fecha o ciclo do Ensino Fundamental com temas que exigem interpretação sofisticada: totalitarismos, Segunda Guerra Mundial, Ditadura Militar e redemocratização. É aqui que o trabalho com fontes primárias, como documentos, depoimentos e jornais de época, ganha mais força e os alunos começam a entender que história contemporânea também é história.
Sugestões de atividades práticas
Análise de discurso (EF09HI20): Selecione um trecho de discurso de Getúlio Vargas durante o Estado Novo e um documento produzido pela resistência ao regime. Peça que os alunos identifiquem os argumentos de cada fonte, o público a que se dirigiam e os silêncios de cada texto — o que não é dito, mas está implícito.
Charge sobre a Ditadura Militar (EF09HI25): Use charges publicadas na imprensa alternativa durante os anos 1970, disponíveis no acervo do Memorial da Democracia. As perguntas devem guiar o aluno a contextualizar o período, identificar o ponto de vista do autor e relacionar a imagem a eventos históricos específicos.
Questão de múltipla escolha com gabarito:
O Ato Institucional Número 5 (AI-5), decretado em dezembro de 1968, é considerado o marco do período mais repressivo da Ditadura Militar brasileira porque:
a) Criou o bipartidarismo e impediu eleições diretas para presidente pela primeira vez. b) Suspendeu direitos políticos, fechou o Congresso e autorizou cassações sem revisão judicial. c) Instaurou a censura prévia aos meios de comunicação pela primeira vez no regime. d) Determinou a extinção dos partidos políticos e a criação da ARENA e do MDB.
Gabarito comentado: Alternativa B. O AI-5 concentrou poderes no Executivo e suspendeu garantias constitucionais, incluindo o habeas corpus para crimes políticos, abrindo caminho para a tortura institucionalizada e o desaparecimento de opositores. Os itens A e D descrevem o Ato Institucional Número 2 (AI-2), de 1965. A censura prévia existia antes do AI-5, embora tenha se intensificado após ele.
Gamificação e Interatividade: Além do PDF para Imprimir
O PDF com exercícios ainda tem lugar — especialmente em escolas com acesso limitado à tecnologia. Mas a BNCC, ao propor metodologias ativas, abre espaço para formatos que ampliam o engajamento sem abrir mão do rigor historiográfico.
Quizzes com fontes históricas: Ferramentas como Mentimeter ou Kahoot permitem criar questões em que o ponto de partida não é "em que ano ocorreu X", mas "a partir dessa charge, o que o autor queria comunicar?". A mudança no tipo de pergunta já é, em si, uma mudança de abordagem.
Sala de aula invertida com documentários: Atribua para casa a assistência a um documentário curto — o Projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional, disponibiliza materiais sobre a Ditadura de acesso gratuito. Em sala, o tempo é dedicado à análise de fontes primárias relacionadas ao tema visto em casa.
Tribunal histórico (role-play): Divida a turma em grupos que defendem perspectivas diferentes sobre um evento — a Abolição da Escravatura, a Proclamação da República, o Golpe de 1964. Cada grupo apresenta fontes que sustentam sua interpretação. O professor conduz o debate e, ao final, sistematiza as múltiplas perspectivas com a turma. Essa atividade trabalha simultaneamente argumentação, leitura de fontes e empatia histórica.
Educação Inclusiva: Atividades de História Adaptadas (NEE)
Garantir que as atividades de história sejam acessíveis a alunos com necessidades educacionais especiais é uma exigência da própria BNCC, que prevê o princípio da equidade como fundamento do currículo. Adaptar não significa simplificar o pensamento histórico: significa mudar o canal de acesso a ele.
Para alunos com dislexia ou dificuldades de leitura: Priorize fontes visuais (mapas, infográficos, charges, fotografias históricas) e ofereça questões orais como alternativa às escritas. O conteúdo histórico permanece o mesmo.
Para alunos com deficiência intelectual: Simplifique as questões sem eliminar o raciocínio causal. Em vez de pedir uma dissertação sobre as causas da Primeira Guerra Mundial, proponha: "Escolha dois países que participaram da guerra e explique, com duas frases cada, por que eles estavam envolvidos."
Para alunos com TEA: Estruture as atividades com etapas claras e numeradas. Evite enunciados com linguagem ambígua. Mapas mentais com estrutura predefinida, nos quais o aluno preenche os nós em vez de construir do zero, costumam funcionar melhor do que produções abertas.
Vale considerar que os desafios de implementação da BNCC tendem a ser mais agudos em contextos de maior vulnerabilidade social — exatamente onde a necessidade de adaptação pedagógica é mais frequente. Coordenadores que precisam embasar decisões sobre acessibilidade curricular encontram nesse tema análises aplicáveis ao cotidiano escolar.cáveis à realidade escolar brasileira.
Gabarito Comentado e Orientações para o Professor
O gabarito não deve ser apenas uma lista de respostas corretas. Quando comentado, ele funciona como formação em miniatura: o professor entende o raciocínio esperado e consegue oferecer feedback preciso, não genérico.
Para questões dissertativas, oriente os alunos com uma rubrica de três critérios:
- Uso de evidências: O aluno sustentou o argumento com exemplos concretos ou fontes?
- Contextualização: O aluno situou o evento no tempo, no espaço e nas relações de poder?
- Articulação de conceitos: O aluno usou termos históricos com precisão — feudalismo, modo de produção, imperialismo, colonialismo?
Para questões de múltipla escolha com fontes (charges, textos, gráficos), o comentário do gabarito deve explicar por que cada distrator é incorreto, não apenas por que a alternativa correta é certa. Essa prática prepara os alunos para as avaliações do SAEB, que cobram exatamente esse tipo de raciocínio, e reduz o tempo que o professor gasta respondendo dúvidas individuais na correção.
O que Isso Significa na sua Sala de Aula
As atividades de história mais eficazes para o 6º ao 9º ano compartilham uma estrutura simples: começam com uma fonte, propõem perguntas que exigem interpretação e contextualização, e terminam conectando o passado a uma questão relevante para o presente. Essa lógica funciona com um único documento impresso, uma charge projetada no datashow ou um objeto trazido de casa — não depende de recursos abundantes.
A tensão entre o espírito inovador da BNCC e sua estrutura de conteúdos mais tradicional é real e vale a pena considerar. Ela também é uma abertura: o professor que conhece as habilidades com profundidade pode fazer escolhas pedagogicamente fundamentadas, priorizando análise de fontes sobre cobertura exaustiva de conteúdo, diversificando perspectivas históricas e garantindo que alunos de todos os perfis tenham acesso às ferramentas do pensamento histórico.
Isso separa uma aula que os alunos esquecem na prova seguinte de uma que muda a forma como eles leem o mundo.



