Quando foi a última vez que um aluno da sua turma perguntou "mas por que isso acontece?" no meio de uma aula de ciências? Se faz tempo, provavelmente não é por falta de curiosidade das crianças. É porque o formato da aula não abriu espaço para a pergunta aparecer.
O componente Ciências da Natureza passou por uma reorientação profunda com a BNCC. Atividades de ciências deixaram de ser sinônimo de copiar o ciclo da água do quadro e passaram a envolver observação, levantamento de hipóteses, experimentação e conclusão. Na teoria, o documento é claro. Na prática, a distância entre o que está escrito e o que acontece nas salas de aula ainda é grande — e reconhecer isso é o primeiro passo para encurtar esse caminho.
Atividades de Ciências para o Ensino Fundamental: O que diz a BNCC?
A BNCC organizou o ensino de Ciências da Natureza em três unidades temáticas, distribuídas do 1º ao 9º ano:
- Matéria e Energia: propriedades dos materiais, transformações físicas e químicas, fontes e usos de energia
- Vida e Evolução: seres vivos, ecossistemas, corpo humano, hereditariedade, evolução biológica
- Terra e Universo: sistema solar, clima, fenômenos naturais, estrutura da Terra
Mas a mudança mais significativa da BNCC não está na organização dos conteúdos. Está na abordagem. O documento propõe que as atividades de ciências saiam da memorização de definições e passem a ser experiências de investigação — nas quais os alunos observamfenômenos, levantam hipóteses, testam e chegam a conclusões com base em evidências.
Esse modelo pressupõe um professor que faz perguntas antes de dar respostas. Que tolera o erro como parte do processo. Que sabe mediar uma discussão científica com uma turma de 9 anos. Essa transição exige requalificação docente contínua — muitos professores precisam aprender a ensinar de um jeito diferente do que aprenderam.
A BNCC define letramento científico como a capacidade de compreender einterpretar o mundo natural e social com base em conceitos científicos, aplicando esse conhecimento em situações cotidianas. Não é sobre memorizar o nome dos ossos do corpo humano, mas entender por que o exercício físico fortalece esses ossos — e como essa informação muda escolhas de vida.
Os desafios reais de implementação
Dois obstáculos aparecem com consistência nos relatos de professores e nas pesquisas sobre o tema.
O primeiro é a formação docente. Professoresdo Ensino Fundamental I frequentemente ensinaram ciências por anos usando o livro didático como roteiro único. A proposta investigativa da BNCC requer uma mudança de papel: o professor passa a mediar descobertas, não a entregar respostas prontas.
O segundo obstáculo é a infraestrutura. A ausência de laboratórios, acesso limitado a tecnologias e falta de materiais nas escolas públicas continuam sendo entraves para atividades práticas. Vale considerar quais recursos estão disponíveis na sua escola e como adaptar as propostas investigativas a essa realidade concreta.
Existe ainda um terceiro desafio menos discutido: a confusão entre adaptar a nomenclatura e mudar a prática. Renomear uma atividade expositiva de "investigação" não a torna investigativa. A pesquisa sobre desafios na implementação do ensino de ciências por investigação aponta que essa armadilha é comum, especialmente quando a formação continuada não é acompanhada de supervisão pedagógica.
Atividades de Ciências para Imprimir (PDF) e Recursos Digitais
O professor não precisa criar tudo do zero. Há materiais de qualidade disponíveis — gratuitos, alinhados à BNCC e organizados por ano escolar.
Fontes oficiais e gratuitas
O Ministério da Educação disponibiliza guias de materiais didáticos com sequências didáticas organizadas por componente curricular e ano escolar. Vale consultar o portal do MEC para localizar recursos alinhados às habilidades da BNCC, incluindo orientações para atendimento a alunos com necessidades específicas.
A Nova Escola publica planos de aula com dicas para o componente Ciências da Natureza, organizados por unidade temática e ano escolar, com versões para imprimir.
O Instituto Claro mantém um banco de projetos interdisciplinares para a educação básica que conectam ciências com língua portuguesa, matemática e outras disciplinas — o tipo de interdisciplinaridade que a BNCC incentiva explicitamente.
Imprima sequências didáticas com antecedência e monte uma pasta física por unidade temática. Atividades de observação e registro em papel são válidas e frequentemente mais adequadas para os anos iniciais do que versões digitais.
Recursos digitais para laboratório virtual
Quando o laboratório físico não está disponível, simulações digitais preenchem parte da lacuna. O PhET Interactive Simulations, da Universidade do Colorado Boulder, oferece dezenas de simulações gratuitas em português — desde circuitos elétricos até a estrutura do átomo. São adequadas para o 6º ao 9º ano e funcionam no navegador, sem instalação.
Para os anos iniciais, o Google Science Journal permite que os alunos usem sensores do celular (luz, som, aceleração) como instrumentos de medição. Uma sala de aula comum vira um ambiente de coleta de dados — e isso já éciência.
Experimentos Práticos: Do Ciclo da Água ao Sistema Solar
Experimentos com materiais de baixo custo não são uma solução de segunda linha. Em muitos casos, são mais eficazes do que kits prontos, porque exigem que o aluno entenda o que está construindo. Muitos professores relatam que atividades experimentais simples aumentam o envolvimento dos alunos e fortalecem a curiosidade científica, mesmo em escolas sem infraestrutura de laboratório.
Experimento 1: Ciclo da Água em uma Sacola Plástica
Ano escolar: 3º ao 5º ano Habilidade BNCC: EF03CI05 — identificar as diferentes formas de representação das fases do ciclo da água
Materiais:
- 1 sacola plástica com fechamento zip
- Água com corante azul (3 a 4 colheres)
- Fita adesiva
- Janela com incidência de sol ou lâmpada aquecida
Roteiro:
- Despeje a água colorida na sacola e vede com cuidado.
- Cole a sacola na janela voltada para o sol com fita adesiva.
- Aguarde 30 a 40 minutos e observe.
Perguntas norteadoras:
- O que está acontecendo com a água dentro da sacola?
- De onde vieram as gotinhas que apareceram na parte de cima?
- Isso tem relação com como a chuva se forma? Como você explicaria?
Experimento 2: Reação Química com Bicarbonato e Vinagre
Ano escolar: 6º ao 8º ano Habilidade BNCC: EF07CI01 — classificar como homogêneas ou heterogêneas misturas envolvidas em processos cotidianos
Materiais:
- Bicarbonato de sódio (3 colheres de sopa)
- Vinagre (meio copo)
- Corante vermelho
- Recipiente de plástico ou argila moldada
- Detergente (1 colher)
Roteiro:
- Coloque o bicarbonato, o corante e o detergente no recipiente.
- Peça aos alunos que registrem uma previsão: o que vai acontecer quando o vinagre for adicionado?
- Adicione o vinagre e observe.
- Cada grupo registra o resultado por escrito e compara com a previsão inicial.
Perguntas norteadoras:
- Essa mistura é homogênea ou heterogênea? Por quê?
- O que causou a reação? Seria possível revertê-la?
- Onde mais encontramos esse tipo de reação no cotidiano?
Experimento 3: Modelo do Sistema Solar em Escala de Distância
Ano escolar: 6º ao 9º ano Habilidade BNCC: EF06CI14 — comparar os tamanhos dos planetas e as distâncias entre eles no sistema solar
Materiais:
- Rolo de barbante ou corredor da escola
- Bolinhas de isopor ou papel amassado em tamanhos diferentes
- Fita métrica
- Tabela de distâncias planetárias em escala reduzida (disponível gratuitamente online)
Roteiro:
- Os alunos pesquisam as distâncias reais entre os planetas e o Sol.
- A turma define uma escala juntos (por exemplo: 1 cm = 10 milhões de km).
- Marcam as posições no barbante ou no corredor da escola.
- Posicionam as bolinhas representando cada planeta.
Perguntas norteadoras:
- O que mais surpreende você nessa representação?
- Por que não dá para fazer essa atividade dentro da sala de aula?
- Como os cientistas trabalham com distâncias tão grandes na prática?
A sequência investigativa da BNCC só acontece de verdade se o professor formulou boas perguntas antes da aula. A pergunta norteadora não é sobre testar o que o aluno sabe — é sobre abrir uma investigação que o aluno ainda não sabe a resposta.
Metodologias Ativas e Inovação no Ensino de Ciências
A BNCC não prescreve um método único, mas sua ênfase em investigação, resolução de problemas reais e conexão entre disciplinas aponta diretamente para as metodologias ativas.
Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) em Ciências
A Aprendizagem Baseada em Projetos é uma abordagem que muitos educadores consideram especialmente eficaz no ensino de Ciências, pois favorece o engajamento, o pensamento crítico e a aprendizagem colaborativa — três pilares do letramento científico proposto pela BNCC. O aluno investiga um problema real, produz algo concreto e apresenta para uma audiência além do professor.
Um exemplo aplicado ao 7º ano: aturma estuda a poluição de um rio ou córrego próximo à escola. O projeto integra ciências (ecossistemas, contaminação da água), matemática (coleta e análise de dados), língua portuguesa (produção de relatório) e história (uso do recurso hídrico ao longo do tempo). Cada etapa tem um produto concreto. A apresentação final pode ser para a comunidade escolar ou para a coordenação pedagógica.
Esse modelo responde ao que pesquisas sobre metodologia de projetos no 6º ano descrevem como aprendizagem significativa: o aluno reconhece o problema como seu, tem autonomia para investigar e vê sentido no que está fazendo.
Simulações e IA como apoio ao planejamento
Ferramentas de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT ou o Gemini, estão sendo usadas por professores para criar roteiros de experimentos adaptados ao nível da turma, gerar perguntas investigativas alinhadas a habilidades específicas da BNCC e montar rubricas de avaliação.
O uso não substitui o julgamento pedagógico do professor. A IA não conhece sua turma, nem a realidade da sua escola, nem os materiais que você tem disponíveis. Mas reduz o tempo de planejamento inicial, liberando energia para a mediação em sala — que é onde o aprendizado de fato acontece.
Ferramentas de IA podem associar habilidades BNCC incorretas a determinados experimentos ou sugerir materiais indisponíveis. Revise sempre a adequação ao contexto da sua turma antes de aplicar qualquer material gerado automaticamente.
Gamificação e atividades de ciências
Mecânicas de jogo funcionam no ensino de ciências porque criam um contexto de baixo risco para o erro. O aluno testa hipóteses sem o peso da nota. Isso é exatamente o que o método científico exige.
Uma estratégia concreta: transforme experimentos em "missões científicas". Cada grupo recebe um problema para resolver, um conjunto limitado de materiais e um prazo. O registro do processo, incluindo o que tentaram, o que funcionou e o que não funcionou, conta tanto quanto o resultado final. A apresentação para a turma fecha o ciclo e desenvolve argumentação científica.
A Educação Integral reforça que um ensino de ciências diverso e contextualizado passa justamente por dar ao aluno um papel ativo na construção do conhecimento — não apenas receber informação sobre o mundo, mas produzir saber a partir dele.
Inclusão na Prática: Atividades de Ciências para AEE
O Atendimento Educacional Especializado precisa garantir que alunos com deficiência participem das atividades de ciências com acesso real ao conteúdo, não como observadores passivos do que a turma faz.
A distinção fundamental aqui é entre adaptar e simplificar. Adaptar significa mudar o formato de acesso ao conhecimento — o canal, o suporte, a sequência de apresentação. Simplificar significa empobrecer o que o aluno aprende. O primeiro respeita o potencial do aluno. O segundo o subestima.
Estratégias por tipo de necessidade
Para alunos com deficiência visual: Materiais táteis resolvem boa parte da barreira de acesso. Modelos em relevo da célula animal, maquetes do sistema solar com alturas diferentes por planeta, caixas de sensação para identificar propriedades dos materiais. Durante os experimentos, descreva em voz alta cada etapa antes de realizá-la — e permita que o aluno toque os materiais antes do procedimento começar.
Para alunos com deficiência auditiva: Representações visuais são centrais: diagramas, infográficos, vídeos com legenda em português. Planeje com o intérprete de LIBRAS, se houver, as perguntas norteadoras antes da aula — isso garante que a mediação científica chegue com precisão e não apenas como tradução literal.
Para alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA): Estrutura clara e previsibilidade reduzem a sobrecarga sensorial. Apresente as etapas do experimento em passos numerados, antecipe os estímulos (cheiros, sons, texturas) que vão aparecer e permita exploração livre dos materiais antes do experimento começar. O aluno com TEA costuma se sair bem em ciências — especialmente quando a atividade tem regras claras e uma resposta observável.
Para alunos com deficiência intelectual: Reduza o número de variáveis no experimento. Use perguntas mais concretas: "o que você está vendo agora?" antes de "o que você acha que causou isso?". Registros visuais, como fotografias, desenhos e colagens, substituem textos escritos sem reduzir o rigor da atividade.
O professor do AEE e o professor regente precisam trocar informações antes de cada atividade, não depois. Quando o AEE fica isolado do planejamento comum, a inclusão fica no papel. Combine com antecedência quais adaptações serão feitas e como a mediação vai funcionar durante o experimento.
Vale consultar os guias de materiais didáticos do MEC voltados à recomposição das aprendizagens, que costumam incluir orientações para atendimento a públicos com necessidades específicas dentro das sequências didáticas de cada componente curricular — esses recursos podem enriquecer o seu planejamento.
O Que Isso Significa para o Seu Planejamento
Atividades de ciências alinhadas à BNCC não dependem de laboratório sofisticado, de tablet por aluno ou de formação específica concluída. Dependem de intencionalidade pedagógica: saber por que está fazendo o que faz e o que quer que o aluno aprenda ao fazer.
O roteiro prático é simples:
- Identifique a habilidade BNCC que quer trabalhar no bimestre — seja de Matéria e Energia, Vida e Evolução ou Terra e Universo
- Escolha um fenômeno observável que exemplifique essa habilidade no cotidiano dos alunos
- Monte a sequência investigativa: observação, hipótese, teste, registro, conclusão
- Planeje a mediação: quais perguntas você vai fazer? Quando vai falar e quando vai esperar que o aluno chegue à resposta?
- Defina como vai avaliar: processo e produto — não apenas o resultado final do experimento
Ainda há perguntas abertas sobre o impacto da BNCC no letramento científico dos estudantes brasileiros a longo prazo, especialmente em diferentes contextos socioeconômicos. Não há dados consolidados sobre até que ponto a abordagem investigativa está sendo aplicada de forma consistente nas escolas — ou em que medida as práticas tradicionais continuam prevalecendo sob nova nomenclatura. Essas lacunas merecem atenção das secretarias estaduais e municipais e da pesquisa em educação.
O que a experiência de sala de aula já mostra, e que muitos professores relatam em contextos de formação continuada, é que atividades investigativas, mesmo com recursos limitados, aumentam o envolvimento dos alunos e reacendem a curiosidade que o modelo expositivo tende a apagar.
As melhores atividades de ciências não estão em kits didáticos caros. Estão na pergunta certa feita no momento certo, e na disposição do professor de não dar a resposta antes que o aluno chegue lá.



